quarta-feira, 6 de maio de 2009

colapso

minha cabeça cansada já não consegue colocar em palavras o que vê e sente. a pilha de livros ao lado, os cacos de vidro na cozinha, a sensação engraçada no peito. meus pés mais gelados que nunca e a agonia por não conseguir escrever.

mas olho para a frente e - embora seja noite - vejo o sol. penso na voz que me fará dormir e nos pés que aquecerão os meus logo mais: não importa quantos dedos eu tenha colado com superbonder, eu estou feliz.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

mais um bilhete

Sabe, mãe, acho que nunca conversamos sobre algumas coisas. Na verdade, falamos sim, mas sempre rindo e brincando. Mãe, tenho que te confessar que adoro o jeito que ele beija minha mão quando eu menos espero, como ele me ouve contar o dia com toda a paciência e me ajuda com as coisas das aulas. Ele repara nas minhas unhas, mas só quando estão bonitas - e é por isso que faço questão de arrumá-las sempre. Brinca com meu cabelo e bagunça ele todo, eu sempre finjo que fiquei braba, mas na verdade ficaria a vida toda com os fios emaranhados. Mãe, ele vira uma criança junto comigo quando uso meus band-aids de ursinho... e sempre, como tu, fala pra eu não esquecer de levar um casaco ao sair de casa. Não, eu não sinto o coração saltando quando o vejo, nem ouço os sinos tocarem. Eu sinto... paz. Uma paz que eu não sabia que era possível sentir até que eu o conheci, uma paz que faz com que minhas viagens de ônibus tenham o caminho mais bonito e meu sono seja mais calmo. E, sabe mãe, ele me faz sonhar. Não aqueles meus sonhos loucos de antigamente, eu e um cara fugindo juntos de um tiroteio... mas imagino uns domingos por aí, vendo tv ou dormindo um pouco. Por ele eu sei que não vou chorar... pelo menos não a qualquer momento, como sempre aconteceu em minha vida.




Enfim, mãe, escrevo essas linhas para avisar que encontrei a tranquilidade que tu tanto me desejou nesse último Natal... E para te garantir que estou feliz como há muito tempo eu esperava...

terça-feira, 21 de abril de 2009

Espero que você nunca sinta isso

isso, minha filha, que me faz perder a fome e a dignidade.
Nunca sinta essa dor insana a cada mesa de bar que dividir, cada gole da cerveja que tomar - a dor que crava facas pelo corpo, mantém as memórias vivas e aquele sentimento morto. Que as lágrimas brotem de teus olhos, filha, por motivos maiores que este, por momentos melhores que noites assim. Noites em que nem shows, nem álcool, nem cigarros têm importância. Porque a razão de tudo que se faz e pensa está ali na mesa ao lado, rindo com outras mulheres.
Espero também que nunca sinta, filha, todo esse amor. Amor que aperta o peito e deixa sem fala, sem saber o que fazer ao ouvir o 'oi' sem graça e sem cor. Espero que não sinta essa coisa doentia, quase que obsessiva, que faz com que músicas tenham outro significado e beijos sejam como explosões. Espero que você ame muito, mas que também seja amada. Que tenha explosões de felicidade, não de paixão e ódio.
Espero, minha filha, que você nunca sinta coisas tão doentias e intensas como eu. E que por isso não escreva em guardanapos de boteco como sua mãe faz agora, com uma cerveja já quente como companhia.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

obrigada por mais um dia

Hoje andava pela casa sem saber muito o que fazer ou pensar. Dentro do armário, vi aquela velha caixinha, que acho que levarei comigo onde eu for.

Abri e fui tomada por um sentimento estranho ao olhar o papel do bombom, o elástico e a palheta. Peguei cada um deles com carinho, como se mexe em algo muito importante... preciosidades, raridades talvez (seriam o meu tesouro?). Não pude conter uma lágrima quando encontrei o guardanapo no fundo da caixa, nem precisaria ler, porque aquelas frases nunca saíram da minha cabeça...
Recomposta, guardei tudo delicadamente... pois, agora, tudo iria para o seu lugar: os velhos sentimentos devem ser descartados.

Com a caixinha roxa nas mão, caminhei em direção ao lixo. Em sua frente, mudei de ideia. Coloquei a caixinha de lado, arranquei meu coração e o lancei no cesto imundo. Parabéns para mim!

quarta-feira, 25 de março de 2009

Comprei felicidade a prazo e não tive forças para pagar

Estava com sede. Andava por aquele deserto sufocante fazia dias e há horas e horas não tomava um copo de água. Começava a rastejar: doía me manter em pé. Eu precisava continuar me movendo, afinal, sair daquele inferno só dependia de mim.. E, para chegar a algum lugar, se faz necessário seguir o caminho.
Avistei uma construção no horizonte. Ao me aproximar, a placa neon revelou uma grande lanchonete. 'Água', pensei. Naquele momento, não me importava que eu estivesse sem emprego, que precisasse de remédios para minha mãe doente, que pilhas de contas me esperassem na porta do que um dia foi minha casa. Não me importava nem mesmo com as impiedosas chibatadas que levaria como castigo por contrair tantas dívidas.
Sem medo ou vergonha, entrei na lanchonete. Pedi uma água gelada e esperei por ela sentada em um sofá macio, sentindo o ar frio em meu rosto. Nada era relevante para mim, além do líquido que invadia meu corpo, que fazia cada uma de minhas células pulsarem de felicidade. Paguei com o cartão de crédito e continuei minha caminhada, sonhando com a próxima vez que teria água só para mim. E fingindo não saber o horror que me esperava na próxima semana, quando pagaria por cada um de meus erros.
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(toda a alegria que me invade ao te ver (ter?) não vale a dor infinita que sinto quando tu parte)

sexta-feira, 20 de março de 2009

O sol que voltou a brilhar - e espero que nunca pare

Eu estava comendo cachorro quente com meu irmão. Cheio de batata palha, que ia despencando a cada mordida. Estávamos sentados na calçada, conversando: será que vão nos escontrar aqui? será que deveríamos ter avisado que viemos comer?
Foi enquanto procurava pelo carro do meu pai que eu te vi passar do outro lado da rua, correndo. Não entendi o porquê da pressa. Foi meu irmão quem disse 'deve estar com medo da chuva'. É verdade, o céu estava preto, as nuvens iam formando um teto apavorante para as pessoas que aproveitavam aquela tarde de sábado. Mesmo assim, sem me importar com os raios que logo viriam, resolvi gritar teu nome. Ouviu, parou, virou: me viu. E continuou correndo, correndo, correndo... fugindo?
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Acordei nervosa. Atordoada, girei na cama e te vi, dormindo de um jeito lindo. Lá fora, nem sinal das nuvens escuras que até pouco me apavoravam - o sol entrava pela janela iluminando teu rosto. Te dei um beijo e voltei a dormir.
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A realidade pode, sim, ser melhor que um sonho.



:)

terça-feira, 17 de março de 2009

as luzes da cidade

Marina ia à chacara de seus avós todo fim de semana. Gostava de lá, de tudo que podia fazer e de quanto brincava. Corria com os cachorros, seguia as borboletas e sempre queria andar no cavalo - mas tinha medo! Marina era acostumada com seu apartamento pequeno no oitavo andar, de onde podia ver as luzes da cidade todas as noites. Por isso foi estranho quando, aos seis anos, viu pela primeira vez um vagalume na chácara. Aquela luzinha voava tão bonito, era impossível não se encantar. Seus olhos brilharam como nunca e coreu pra casa contar pra sua mãe. A avó que ouvia a conversa riu, disse que eles sempre apareciam atrás da casa. A partir disso, todas as noites Marina sentava quietinha em um degrau da escada dos fundos, esperando o vagalume aparecer. Não queria ele só para ela, contentava-se em contemplar toda aquela beleza, com um sorriso no rosto.

Quinze anos depois, Marina vive tudo isso de novo. No meio de tantas luzes descaradas - comuns na sua vida - encontrou um vagalume. Tão bonito, tão diferente de tudo, de todos. De sua cadeira nos fundos da sala, Marina se sente como no degrau de tanto tempo atrás. Só observa. E sorri.

(o brilho nos olhos é o mesmo)